Nascida em São José dos Campos em 1919, Iracema França Lopes Corrêa, conhecida como “Dedé” – apelido dado pela irmã mais nova –, uniu em sua trajetória duas heranças familiares: as raízes caiçaras de sua família materna, nativa de Ilhabela (SP), e o engajamento intelectual de seu pai.

Criada em uma família tradicional, suas vivências de infância na casa dos pais em Ilhabela cultivaram o profundo vínculo com a cultura local, definindo assim o rumo de sua vida e obra.





Embora sonhasse com a Filosofia, dedicou-se ao Curso Normal Superior, formação então destinada ao magistério, e graduou-se em Educação Física pela terceira turma da USP. Foi justamente no espaço da educação que ela encontrou terreno fértil para cultivar seu interesse pela cultura popular e o folclore. Como professora, organizou, em 1963, a Semana do Folclore em Osasco, evento que se revelaria fundador em sua trajetória. Esta primeira incursão no universo das tradições populares marcou o início de uma dedicação que se estenderia por décadas, antecipando o trabalho de preservação cultural que mais tarde desenvolveria em Ilhabela.
Em 1967, ao se aposentar aos 48 anos, mudou-se definitivamente para Ilhabela e aprofundou seus estudos na Escola Paulista de Folclore, sob orientação do renomado folclorista Rossini Tavares de Lima — cuja metodologia viria a fundamentar suas futuras pesquisas.




A pé ou de canoa, percorreu o litoral documentando manifestações culturais como Congada, Quebra-Chiquinha, Ciranda, Folia de Reis, Vilão, Caiapó e Passa Chapéu.

Suas pesquisas resultaram no livro “A Congada de Ilhabela na Festa de São Benedito” (Escola de Folclore, Editorial Livramento, 1982), obra fundamental para o resgate e valorização dessa manifestação cultural tão relevante.
Sua atuação incansável no registro da cultura caiçara trouxe-lhe reconhecimento público: em 1982, recebeu o título de Cidadã Caiçara Ilhabelense e, entre 1989 e 1990, assumiu a Secretaria Municipal de Cultura da cidade. Dessa forma, consolidou-se como figura essencial no resgate, na preservação e na promoção do patrimônio cultural de Ilhabela, com especial dedicação à Congada, ao Caiapó e aos grupos de Folia de Reis.
Até seu falecimento em 2019, aos 90 anos, manteve viva a chama da cultura tradicional. Deixou dois filhos, seis netos e dez bisnetos, além de um último sonho: criar um museu do folclore regional.
Seu maior legado, sem dúvida, está no precioso acervo que meticulosamente reuniu ao longo de décadas – um tesouro que agora se abre ao público, fazendo jus finalmente ao seu desejo de ver a memória caiçara valorizada e acessível a todos.

Uma intelectual do patrimônio caiçara
Iracema França tornou-se uma intelectual do patrimônio caiçara e ocupou, com vigor e sensibilidade, um espaço de pesquisa historicamente dominado por homens. Em um momento em que o estudo do folclore no Brasil era majoritariamente masculino, ela ajudou a fazer desse campo um lugar também de presença feminina. Lutando contra a invisibilização, ela promoveu, por meio de um processo rigoroso e constante de trabalho, a valorização da cultura caiçara do Litoral Norte paulista.
Seu trabalho na organização desse riquíssimo acervo mostra que catalogar não é apenas um gesto técnico: é escolher e nomear o que deve representar uma cultura. Essa mediação simbólica nunca é neutra. No acervo de Dedé é possível perceber seu compromisso com a salvaguarda dos modos de vida caiçaras, seus saberes e suas manifestações.
Nesse sentido, importa destacar que, mesmo advindo da elite ilhabelense, Dedé fez uma escolha decisiva: colocar seu prestígio e sua energia a serviço das culturas populares, dando a elas visibilidade e reconhecimento institucional. O próprio acervo que organizou registra a aclamação pública dessa trajetória de impacto, revelada nos diversos prêmios, menções honrosas e até na escola de Ilhabela que leva seu nome e atesta a relevância de sua atuação.
O envolvimento de Dedé com o patrimônio caiçara, portanto, transcendeu o olhar de uma pesquisadora distante. Movida por uma percepção aguçada das transformações que, de fato, testemunhava no modo de vida local, ela buscou embasamento acadêmico para sua atuação, tornando-se uma agente ativa no combate ao desaparecimento das tradições.
Para isso, buscou formação especializada na Escola de Folclore, onde foi aluna de Rossini Tavares de Lima, coordenador da Comissão Paulista de Folclore. Dessa forma, sua metodologia de trabalho foi diretamente influenciada pela escola intelectual que estruturou o folclore nacional, herdando o rigor e o propósito de instituições como a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, ligada ao Ministério da Educação.
Apesar do rigor acadêmico, Iracema tomou um importante caminho, rompeu com um paradigma que ditava os preceitos acadêmicos da época: o de que um pesquisador deveria realizar seus estudos a partir de um lugar externo, sem se envolver com o objeto estudado. Enquanto seus colegas observavam de longe, Dedé se envolvia na organização dos eventos, angariava fundos e vivia intensamente cada manifestação cultural que estudava.
“Apesar de muitos críticos acreditarem que não se deve interferir nos grupos folclóricos, pois eles perdem sua espontaneidade, se não fosse dado um apoio financeiro e logístico aos grupos de Congada, Caiapó e aos cantadores de Reis de Ilhabela, todos eles teriam morrido”, afirmou Dedé em um dos seus textos autobiográficos disponíveis no acervo.

Ao longo de sua trajetória, Dedé organizou diferentes versões de seu currículo e história de vida. Esses documentos, que agora disponibilizamos aqui, permitem que ela mesma se apresente ao público por meio de suas próprias palavras, refletindocomo desejava ser lembrada e quais aspectos de sua obra considerava mais significativos.
Clique para acessar os documentos em PDF.
A casa da Dedé
No coração do Saco da Capela – antigamente chamado de Saco Grande – a casa onde Dedé viveu ainda resiste. Erguida no estilo caiçara, com suas linhas simples e madeira marcada pelo tempo, a construção é um testemunho tangível de outros modos de habitar. Dedé, que dedicou a vida a proteger um patrimônio que estava sob ameaça, fez de sua própria existência um ato de preservação. Sua casa pode ser considerada, ela mesma, um patrimônio material da ilha.
Hoje, apertada entre hotéis e empreendimentos que crescem sob a sombra da especulação imobiliária, a casa segue resistindo. Transformada em bar-restaurante, ainda mantém nas vigas, no telhado e nas cores a memória de uma Ilhabela que a pressão pelo “progresso” insiste em tentar apagar. É uma representante concreta de uma cultura que Dedé sabia ser vulnerável e que enfrenta a pressão constante do que alguns ainda insistem em denominar como desenvolvimento. Mas segue de pé, firme como seu legado, lembrando-nos que preservar não é apenas guardar o passado, mas é garantir que ele seja preservado e tenha lugar no futuro.









